05 de Novembro

Posted in Dela on novembro 5, 2010 by Maely

Déco,

Parada aqui com esse bilhete na mão, é impossível não criar expectativas. Eu decidi parar de dar voltas em torno de mim mesma e estou embarcando de volta pra São Paulo. O que um dia eu chamei de casa. Eu quero voltar, e o medo ainda é grande. No meu melhor sonho você estará no saguão me esperando e nenhuma palavara mais será necessária. Mas eu sei que as chances disso acontecer são tão remotas quanto as de apagarmos tudo o que aconteceu.

Cansei dos bares, cansei das noites sem dormir, cansei da saudade e dos tormentos que eu criei pra mim. Seja aqui ou em São Paulo, eu quero voltar a ser quem eu era e a maior parte do que eu era só existia porque você existia em mim. Numa dessas coincidências do destino, outro dia entrou no trem um rapaz que usava o mesmo perfume que você. Eu sei que você sabe que foi um vexame: Eu ali, no metrô londrino chorando no ombro de alguém que usava o mesmo perfume que você.  Olha só a que ponto cheguei. E agora voltar pra casa também não é um recomeço. Colocar todas as lembranças que eu trouxe pra cá de volta na mala e deixar tudo o que eu vivi aqui talvez seja só uma maneira de recomeçar de onde eu parei. Hoje não sei se deveria ter vindo, nessa fuga que não me levou pra lugar algum. As pessoas que conheci e das quais mal me lembro o nome, em breve serão só rostos sem vida na memória. Porque sem você nada tem cor, nada tem graça. Nem as noites nos pubs e boates que eu sempre quis conhecer tiveram alguma graça sem ter você pra rir da estranheza das pessoas comigo depois. E chegar em casa bêbada e não ter você me dizendo que precisamos “pegar leve” na vodka sempre foi tão triste…

Na verdade eu nunca vim pra cá. Tudo o que havia de melhor em mim ficou na nossa história. E quando eu sentir o seu perfume outra vez, espero que seja em você.

Eu fecho os olhos e sinto o motor do avião.

Amor, Eme.

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18 de Outubro

Posted in Dela on outubro 18, 2010 by Maely

Pela janela do trem a paisagem nunca é a mesma. E voltar para Paris talvez não seja a melhor ideia porque  é impossível conviver com aqueles cafés impunemente. E você tem razão quando usa suas metáforas só pra me dizer que nada do que façamos hoje vai mudar o que passou e nem quem somos. E você sabe dos meus medos, de altura, de me entregar, de recomeçar. E hoje eu já acho mesmo que tanto faz estar aqui voltando pra Paris no Expesso Oriente ou estar em um bar qualquer na Vila Madalena. E não tem ninguém sentado ao meu lado. Eu gostei disso, não queria mesmo um vizinho me olhando assustado enquanto eu escrevo pra você, porque eu sempre choro. Já não sei mais não sentir sua falta.

Na parada de Calais, eu pensei em não voltar pro trem, mas lembrei da árvore que tem em frente á janela do quarto que eu divido com a italiana em cima do café. Dá pra subir nela passando pela janela. E talvez você nunca saiba como é bom fazer isso. Mas você sabe como me fazer rir e isso é bem mais dificil do que subir numa árvore qualquer perdida em Paris.

Enquanto eu escrevo, o trem continua mudando a paisagem da janela. E eu já sei que volto pra casa logo, a vida grita e eu preciso deixar ela acontecer.  Ainda que seja perto de você.

13 de outubro

Posted in Dele on outubro 13, 2010 by .

Liverpool, Califórnia

Eu poderia dizer que só quis te comer, mas fiz foi amor mesmo. Não muda o fato de que eu transei com você. Eu poderia levantar da cama e fumar um cigarro na janela, mas eu não fumo. Não muda o fato de que eu ainda posso ir a janela. Eu poderia lhe contar sobre a migração dos pingüins, mas eu nem sei em que estação estamos. Não muda o fato de que eu posso inventar qualquer história.

Eu poderia lhe dizer pra ouvir Blonde On Blonde do Dylan, mas Wild is the Wind da Nina é uma opção muito mais agradável. Não muda o fato de que o Revolver sempre vai estar num lugar privilegiado da estante. Eu poderia lhe dizer pra assistir a ‘500 dias com ela’, mas você sempre vai preferir ‘Juno’. Não muda o fato de que o Wolverine é o melhor X-Men e que o Harry Potter precisa mesmo morrer.

Eu poderia acreditar nas suas reclamações infantis sobre falta de romantismo, mas eu acredito em fingir mesmo. Não muda o fato de que você pode continuar a mentir como quiser. Eu poderia te trazer a sacada e dançar sem música pra algum vizinho espiar nossa felicidade, mas você morre de medo da altura do segundo andar. Não muda o fato de que eu já puxei a mesa do centro da sala pro canto.

Eu poderia lhe dizer que vou mudar e até jurar, mas tentar nunca foi meu forte. Não muda o fato de que é você que sempre tenta. Eu poderia eleger um dia especial na semana e te levar pra jantar num desses lugares bacanas no Jardins, mas a gente nunca foge do capuccino com coxinha e suco de caju com brigadeiro do shopping. Não muda o fato de que o seu café com leite pela manhã é infinitamente melhor.

E eu poderia lhe dizer que somos reflexo do que vemos um no outro, e afirmar com certeza, porque caso contrário eu não lembraria da ordem exata das músicas do set list que pegamos no show do Pato Fú. E isso não muda o fato de que nada é o que se lembra ou diz que lembra. E só é se a gente permite que essas coisinhas todas que parecem pequenas falem por nós. E nós estamos separados por um oceano.

E daí eu, que tinha a pretensão de ser Liverpool ou Cambridge, descobri que não passo de Califórnia. E é fato que se for assim, eu não teria nunca mais que ouvir Pet Sounds e chorar.

24 de setembro

Posted in Dela on setembro 24, 2010 by Maely

Tá frio aqui. E hoje cedo eu fiquei um tempão olhando a neve pela janela, sabe. E aquela rua toda pintada de branco parecia o mesmo vazio que ficou dentro de mim. Daí eu fiquei um tempão olhando pela janela, e perdi a conta de quantos cigarros eu fumei ali naquele tempão que eu só pensava no branco depois da janela. E daí depois não tinha nada, e eu fiquei com medo do depois, desse depois que não tem nada porque eu tenho medo de esquecer acho que você sabe. Porque eu tenho medo desses dias passando e meu Deus, Déco… Já faz tanto tempo e eu não tenho coragem de voltar pra casa e eu também não quero mais ficar aqui e ai, como você ia ficar tão bonito aqui nesse branco depois da janela, eu tenho medo de depois não conseguir sentir mais nada, porque tá fazendo um frio filha da puta aqui e sempre tem um vinho e depois do vinho a gente sempre esquece as coisas. E eu não quero esquecer, eu não quero deixar o tempo passar. Ás vezes chove um pouco depois da neve e a água deixa o branco assim meio barrento e eu fumo mais um cigarro e tiro o sapato e fico ali sentada na janela um tempão olhando a chuva e as pessoas correndo dela e daí eu só queria que o tempo voltasse e tudo fosse como era e eu estaria em casa e teria você roubando meu cigarro e minhas meias e dai a chuva seria mais bonita porque você ia começar a contar uma das suas mil coisas e sabe. Tá mesmo muito frio aqui.

11 de Setembro

Posted in Dele on setembro 11, 2010 by .

Se eu pensar demais estrago tudo. Mas é simples. Sem cair na tentação de dizer que te como com pão de queijo só se tiver coca-cola, eu confirmo que antes eu nem conseguia dizer a verdade como eu via. Era só pedir pra você me cuidar, porque era de cuidado que eu precisava naquele dia, naquele instante que eu pensei demais, eu precisava do seu cuidado.

O certo é que, se eu tô aqui firme e aguentando, é por sua causa, por causa da esperança de poder te ver um dia e sentir que tá tudo bem. Eu só não me joguei do viaduto porque eu sonho com você todo dia. Porque eu acordo e durmo pensando em você e nesse meio tempo penso também. Porque enquanto nada fizer sentido, é sim que eu prefiro que seja.

01 de Setembro

Posted in Dela on setembro 1, 2010 by Maely

Déco,

Mais um mês começa, dizem que esses inícios de ciclos são cheios de significados e boas vibrações. Talvez seja, e agora me parece um bom momento de dar um outro rumo ao que alguns chamam de fuga. E você sabe que se eu fosse um pouco menos covarde eu teria ficado, nem que fosse só pra ver no que ia dar.

Cansada de fazer e desfazer malas, agora as roupas ficam por lá mesmo… Se der vontade é só fechar e seguir em frente. Embora todos os lugares ainda pareçam iguais, sempre tem um vento trazendo um ar diferente e no fim das contas eu sei que mais dia menos dia é aí que eu vou parar. E depois de tanto tempo dá aquele frio na barriga, imaginar voltar aos nossos lugares, rever os amigos… Me diseram que o “nosso” apartamento ainda está vazio, deve ser triste passar por lá e só ver o vazio que deixamos. Apartamentos não deveriam ficar vazios.

Sabe, depois de tanto tempo eu não sei mais pegar o caminho de volta. Não saberia ser blasé o suficiente se tivesse a coragem de ligar e dizer oi-como-vai-tudo-bem-com-você-o-que-anda-fazendo e de novo cairia na minha velha armadilha de tratar mal pra não denunciar o amor. Que não acaba. Que ainda está aqui, quietinho, mas vivo. E eu ando ás vezes sem saber pra onde e quase sempre não sei pra onde voltar. Não me sinto em casa em lugar nenhum, sou sempre estrangeira a quem basta uma rede roubada pra poder trabalhar. E daí os dias são sempre meio iguais, cafés, pub’s, lanchonetes… boates, beijos, cigarros, vodka e ressaca.

Tudo porque em algum lugar do caminho eu me perdi de você. E não consigo mais me achar. Quem sabe qualquer dia desses eu esteja bêbada o suficiente pra te ligar e dizer qualquer asneira como:

“-Me come com pão de queijo?”

27 de Agosto

Posted in Dela on agosto 27, 2010 by Maely

Déco,

E mesmo andando por tantos lugares, não consigo me encontrar. Paris não fez sentido, Londres também não… E agora nem faz diferença onde eu estou já que no fim das contas é tudo a mesma merda de sempre, todas as cidades com suas gentes desinteressantes e o transito no fim da tarde e os bares que sempre tem uma lâmapada queimada na soleira da porta. Então não faz diferença quem me beija, se homem ou mulher ou qualquer outra coisa que ao menos se pareça com, porque no fim das contas só estão perdendo seu tempo já que pouco importa onde isso vai dar.

E eu não sei mais por onde você anda. E eu não sei mais nada de você e isso é a pior parte, saber que não sobrou nada do que foi e poderia ainda ter sido tão bonito. Eu sei das coisas que eu estraguei, e sei das culpas que eu tive. E não me sinto mais no direito nada que seja relacionado a você, mesmo que seja perguntar a algum amigo em comum se tem noticias suas. E mesmo não merecendo, eu sinto tanto a sua falta e queria tanto que voltassem os dias em que qualquer bobagem era motivo pra estarmos juntos, mesmo que fosse só pra  dividir um fone de ouvido e ouvir aquelas músicas que a gente gostava “…sem vinho nem cigarros”. E os espaços onde eu sabia que pra onde eu olhasse iria te achar.

O tempo não volta. E eu não sei mais.