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05 de Fevereiro

Posted in Dele on fevereiro 5, 2011 by .

Parece só aquele ponto final agora. De me sentir incompleto enquanto o táxi estava a caminho do aeroporto. Desde de quando vi que tinha cumprido todo o ritual de fechar as janelas e cortinas, verificar o pino do gás, as tomadas elétricas, as janelas de novo, fechar o registro, me certificar que tudo estava pronto pra partir, fechar a porta com duas voltas da chave, sorrir sem olhar pra trás, chamar o elevador, entrar no elevador, sair do elevador, dizer pro porteiro segurar as correspondências e finalmente subir no táxi, percebi que meu endereço estava prestes a mudar como não havia pensado antes quando de fato eu sai. Parece só aquele ponto final agora. Parece a certeza de não deixar pedra sobre pedra dessa nossa relação amistosa e incoerente. Parece o fim de um episódio de Californication ou de repente o comercial entre um e outro bloco de um programa da tv Cultura que te faz perder o resto do programa. Isso foi até minha chegada no portão 2 do aeroporto. As malas não guardam as despedidas porque fazê-las sempre é mais difícil. No portão de embarque, depois de ter passado no free shop, eu me toquei que é de aventura que eu queria viver mas que tal aventura não comportava a felicidade de ter você comigo enquanto isso durar. Não quero dizer que isso seja alguma forma de recompensa por você ter partido quando eu queria que você ficasse. Desejei não voltar pro apartamento sem que você estivesse lá, e veja, você tinha ido embora mesmo e cumprido com sua palavra. Eu provavelmente voltaria com você se tivesse te deixado me convencer a ficar e te acompanhei de longe por alguns minutos. Vi sua ansiedade misturada com excitação e até pensei que pudesse ser verdade. Então não podia cumprir com a minha palavra de te deixar tentar me convencer a ficar porque você ganharia mesmo não se tratando de um jogo. Voltei ao free shop e resolvi me assegurar que eu embarcaria pra Buenos Aires e colocaria meu plano em prática. Pra isso comprei algumas camisinhas.

Te vi sentar e levantar, andar de um lado pro outro e quando isso começou a me angustiar eu finalmente parti. Não olhei pra trás e fui firme até o balcão da Aerolineas e garanti a passagem pro próximo vôo, o qual não esperei mais do que trinta minutos nos quais eu não parava de pensar em você. Comi todas as tranqueirinhas que comprei no free shop, inventei discursos com desculpas e imaginei brigas que nos levaria ao chão loucos de desejo, conclui que logo que nós dois estivéssemos satisfeitos, você se encheria de culpa e eu de raiva, e iria embora te fazendo chorar e me sentindo usado. O vôo então foi chamado, a fila formada, check-in efetuado e todas essas besteiras esquecidas, jogadas à parte da experiência motivadora de te ver me esperando.
– Buenos Aires é linda! ouvi alguém dizer. A moça do check-in entrou imediatamente na conversa.
– Mas tá frio por lá, você estão preparados? E deu aquele sorriso meigo quase forçado que elas devem aprender no treinamento. Estendi meu passaporte, documento e passagem.
– Primeira vez em Buenos Aires?, confesso que demorei pra me tocar que ela falava comigo…
– Sim, é sim. Me limitei a responder.
– Acho que você vai gostar de lá. Ela me disse como quem adivinhasse o futuro.
– Será? Eu impliquei.
– Posso garantir que sim. Tenha uma ótima viagem. Ela me disse sorrindo.
Entrei no avião e sentei no meu lugar depois de guardar a bagagem de mão. Me acomodei como quem tivesse se escondendo dos outros passageiros, torcendo pra que nenhum chato sentasse ao meu lado. A cada moça que embarcava eu voltava meus pensamentos pra que o assento ao meu lado fosse o delas. Porém, eu teria a sorte de decolar sozinho na minha poltrona. O que eu não tinha reparado é que a moça do check-in tomou seu lugar no avião… Estávamos voando sobre o oceano quando depois de me oferecer a primeira bebida, descobri que aeromoças também usam o banheiro da aeronave, descobri que elas são boas em prever o futuro e que tive presença de espírito ao comprar as camisinhas.

Essa jamanta já fez mais estragos do que o planejado.

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8 de novembro

Posted in Dele on novembro 8, 2010 by .

Eme,

Dos olhos, do coração e de tudo o que você já criou, ficou o sentimento e as coisas boas que por si só lhe dizem o que é de fato o importante. Não se iluda com a distância ou qualquer coisa que possa te confundir ainda mais porque hoje aqui, eu sei o que digo pra mim.
Se eu conseguir me encarar no espelho e ver que meu sorriso continua como antes, então valeu. Se eu conseguir continuar dançando de cueca pela casa, então valeu. Se eu continuar fazendo piada de mim mesmo, então valeu.
Você pode não ter acreditado no escreveu e/ou nada disso ter se confirmado como se imaginava pelo roteiro antigo ainda, mas dos olhos, do coração e de tudo o que você criou, ficou uma ponta de vontade e desejo de fazer dar certo, seja o que “dar certo” signifique.

Eu ainda não estou pronto pra isso. Mas você vai notar que nosso apartamento continua lá, quase do mesmo jeito que você deixou quando saiu. Eu só mudei a disposição de uns tapetes, troquei os móveis de lugar, consertei o lustre do quarto, coloquei lâmpadas econômicas…

Preciso voar. Como você fez. Preciso me perder por ai e conseguir voltar sem ajuda de ninguém. Tenho que aprender a me virar sozinho num lugar onde não há muitas possibilidades de alguém correr pra me acudir. Além do mais, quero transar com alguma argentina num clube em Buenos Aires. Quero transar com alguma puta mexicana em Tijuana. Quero participar de um swing em alguma boate de Houston. Quero transar com uma japonesa pentelhuda, vestida com aqueles tradicionais vestidinhos de uniforme escolar, em Tóquio. Quero transar com alguma tailandesa que saiba tatuar alguma coisa misteriosa que todo mundo vai me perguntar o que significa. Quero transar com uma italiana peituda que eu por acaso conheça num café em Milão. E quero transar de novo com uma moça do cabaret embaixo da Pont d’Iena lá em Paris.

Certamente que posso te encontrar no aeroporto, mas não espere que eu volte com você pra casa. Mas… bem que você pode tentar me convencer.

Tenho oitos pra te dar!

13 de outubro

Posted in Dele on outubro 13, 2010 by .

Liverpool, Califórnia

Eu poderia dizer que só quis te comer, mas fiz foi amor mesmo. Não muda o fato de que eu transei com você. Eu poderia levantar da cama e fumar um cigarro na janela, mas eu não fumo. Não muda o fato de que eu ainda posso ir a janela. Eu poderia lhe contar sobre a migração dos pingüins, mas eu nem sei em que estação estamos. Não muda o fato de que eu posso inventar qualquer história.

Eu poderia lhe dizer pra ouvir Blonde On Blonde do Dylan, mas Wild is the Wind da Nina é uma opção muito mais agradável. Não muda o fato de que o Revolver sempre vai estar num lugar privilegiado da estante. Eu poderia lhe dizer pra assistir a ‘500 dias com ela’, mas você sempre vai preferir ‘Juno’. Não muda o fato de que o Wolverine é o melhor X-Men e que o Harry Potter precisa mesmo morrer.

Eu poderia acreditar nas suas reclamações infantis sobre falta de romantismo, mas eu acredito em fingir mesmo. Não muda o fato de que você pode continuar a mentir como quiser. Eu poderia te trazer a sacada e dançar sem música pra algum vizinho espiar nossa felicidade, mas você morre de medo da altura do segundo andar. Não muda o fato de que eu já puxei a mesa do centro da sala pro canto.

Eu poderia lhe dizer que vou mudar e até jurar, mas tentar nunca foi meu forte. Não muda o fato de que é você que sempre tenta. Eu poderia eleger um dia especial na semana e te levar pra jantar num desses lugares bacanas no Jardins, mas a gente nunca foge do capuccino com coxinha e suco de caju com brigadeiro do shopping. Não muda o fato de que o seu café com leite pela manhã é infinitamente melhor.

E eu poderia lhe dizer que somos reflexo do que vemos um no outro, e afirmar com certeza, porque caso contrário eu não lembraria da ordem exata das músicas do set list que pegamos no show do Pato Fú. E isso não muda o fato de que nada é o que se lembra ou diz que lembra. E só é se a gente permite que essas coisinhas todas que parecem pequenas falem por nós. E nós estamos separados por um oceano.

E daí eu, que tinha a pretensão de ser Liverpool ou Cambridge, descobri que não passo de Califórnia. E é fato que se for assim, eu não teria nunca mais que ouvir Pet Sounds e chorar.

11 de Setembro

Posted in Dele on setembro 11, 2010 by .

Se eu pensar demais estrago tudo. Mas é simples. Sem cair na tentação de dizer que te como com pão de queijo só se tiver coca-cola, eu confirmo que antes eu nem conseguia dizer a verdade como eu via. Era só pedir pra você me cuidar, porque era de cuidado que eu precisava naquele dia, naquele instante que eu pensei demais, eu precisava do seu cuidado.

O certo é que, se eu tô aqui firme e aguentando, é por sua causa, por causa da esperança de poder te ver um dia e sentir que tá tudo bem. Eu só não me joguei do viaduto porque eu sonho com você todo dia. Porque eu acordo e durmo pensando em você e nesse meio tempo penso também. Porque enquanto nada fizer sentido, é sim que eu prefiro que seja.

19 de Agosto

Posted in Dele on agosto 19, 2010 by .

Eme,

Até ontem mesmo eu podia jurar que não me apaixonaria e acaso acontecesse, eu tinha planejado não me envolver completamente, não pular de cabeça nesse riacho, que mesmo fundo era estreito e agitado. Mas lá fui eu me entregando, porque de certa maneira era o mais certo a fazer. Você era todo o resultado de tudo o que eu tinha pensado pra mim e não podia me desapontar e muito menos a você. Mas a vida vem com suas fanfarronices, não é?!

Parecia que eu tinha tudo sobre controle e tudo o que a gente havia criado pra gente, em todos os sentidos, caminhava pro certo. E de repente um castelo vai ruindo com todas essas mesmas coisas dentro e custa entender o motivo… Enfim, eu só quero dizer que eu deveria ter pedido ajuda, porque depois disso eu me vi completamente perdido e continuar vivo não fazia sentido algum. Pular do Sta Ifigênia era o mais aceitável já que nenhum lugar no universo podia ser, no mínimo, confortável. Veja, na minha cabeça o problema sempre foi eu. E eu me culpei muito por uma culpa que você não quis assumir. E de um minuto pro outro também não via mais sentido em tudo o que a gente tinha construído de bonito e que naquele instante não servia pra nada. Tem ideia do que é preparar a vida esperando alguém e ver tudo isso desmoronando sei lá porque? Mas, sendo bem sincero, essa não é a sua culpa e o problema disso é todo meu. Fui eu que achei que você era a mulher da minha vida miserável. E dai pensando nisso, com esse ponto de vista, relativizando todos os erros, você bem teve razão de se distanciar e não querer mais nada com alguém que antes de você tinha uma vida miserável. Lembra de Bartleby e do meu medo em me transformar em algo parecido? Aconteceu.

Me perguntam se eu ainda gosto de você e eu não sei responder com firmeza. Talvez eu te ame pra sempre e só não queira mais estar com você ou qualquer coisa do tipo. Isso é o que parece mais seguro dizer agora nesse momento, porque é o jeito que consigo transcrever o que eu pareço sentir. Mas você, não me deixe te enganar, ainda está em tudo por ai. Mas não deixe que você me engane também, eu aprendi que o amor não é suficiente…

A vida até que anda, na medida do possível e provável, muito instigante. É questão de erguer a cabeça, bater no peito e sorrir. E de me mostrar interessante pra que talvez alguém pegue a isca. Quero dizer, hoje, você me faz falta, como sempre fez. Mas te preciso mais minha amiga do que tudo. Preciso de você por perto. Mas o que fazer se quem pode te salvar é também quem te faz sofrer? Eu até penso em arriscar, mas não me sinto preparado pra deixar o que ficou pra trás, pra trás…
Pra encerrar, eu tenho pensado muito numa coisa que o Bono escreveu: “Well, it’s too late, tonight, to drag the past out into the light. We’re one, but we’re not the same, we get to carry each other, carry each other…”

Pro bem ou pro mal… é a verdade.

23 de Julho

Posted in Dele on julho 23, 2010 by .

Eu queria ter algo que nos afastasse a dor. Porque sei que isso é o que é pra sempre. Uma pontinha de mágoa que, por Deus, tem mais força que a gente. No fundo eu só preciso de você e não do seu amor. Quem dera acreditar nisso.

Sem mais.

17 de junho

Posted in Dele on junho 17, 2010 by .

Hoje eu acordei de madrugada. O estrado da cama caiu. Eu fiquei assustado, igual quando eu cochilo no sofá da sala e sonho, meio dormindo meio acordado, que tô conversando com alguém que tá falando o que na verdade é a TV ligada, e invariavelmente eu tropeço ou tomo um tombo de uma escada. E daí eu literalmente dou um pulo no sofá, o corpo todo treme, dá um gosto ruim na boca. Enfim. Acordei de madrugada, o estrado caiu. Era 3 e 28 da manhã. Eu vi no celular. Eu durmo com o celular colado no travesseiro. Primeiro porque tem o despertador programado pra tocar todos os dias às 7 e 35. O alarme dele chama “Minuet”. Segundo porque antes de dormir eu ouço um pouquinho de rádio. E, por fim, porque eu alimento bem lá no fundo a idiotice de ter esperança que talvez numa hora dessas você possa telefonar ou ao menos mandar uma mensagem. Antigamente eu ia pra cima e pra baixo com o celular, só por esse motivo, já que agora só uso o celular pra emergência. Ele servia mesmo era pra falar com você. Enfim. Acordei de madrugada, o estrado caiu às 3 e 28 e o celular desperta às 7 e 35. Tirei o colchão e os cobertores que se enrolaram e caíram no chão. Eram dois, um cobertor pesado e uma manta dobrada no meio. Tinha o lençol ainda, que prendeu no parafuso da armação da cama e caiu rente a parede. E o par de meia que estava nos meus pés na hora que fui dormir, também caiu rente a parede. Enfim. Acordei de madrugada, o estrado caiu, o celular daqui a pouco desperta, os cobertores caíram no chão e meu pé tá gelado agora. O chinelo foi chutado pra perto da porta e eu comecei a tossir. E pensei em descer na cozinha fazer um chocolate quente. Mas antes coloquei o estrado no lugar e com a ajuda do martelo dei umas batidas nos pregos e nas partes que juntam a armação. E esse som seco das batidas do martelo me dá dor de cabeça. Parece que perfura o ouvido e ecoa por dentro mais do que já ecoa no quarto. Enfim. Um chocolate quente podia resolver o frio do corpo naquela hora, podia resolver o pigarro na garganta, podia abrandar um pouco alma… Eu sei que tristeza não mata. Mas devia.

Eu passei meu aniversário sozinho, sem nenhuma comemoração especial. Comprei um bolo no mercado e sorri com umas coisinhas bem bestas que me vieram sem motivo algum. Me lembrei de mim no espelho fazendo careta, quando mais novo, penteando o cabelo. E eu trazia um segredo nos olhos. Talvez o segredo do tempo. E talvez só não tenha conseguido desvendar a charada. Pensei numa coisa engraçada que Aristóteles disse, algo como “a felicidade é ter algo pra amar, algo pra fazer e algo pra esperar”. Meu sorriso me conforma mais em não ter motivação alguma pra aplicar isso a nada que me é comum.

Eu não tô triste. Tô é chateado com um monte de coisa, sim. Mas nenhuma que justifique de verdade. É a acomodação que vibra mais alto que qualquer vuvuzela. A coisa é simples: Você nem precisava voltar. Eu só queria um abraço seu,  um abraço longo e apertado. E queria que me dissesse que tá tudo bem.