Arquivo para outubro, 2010

18 de Outubro

Posted in Dela on outubro 18, 2010 by Maely

Pela janela do trem a paisagem nunca é a mesma. E voltar para Paris talvez não seja a melhor ideia porque  é impossível conviver com aqueles cafés impunemente. E você tem razão quando usa suas metáforas só pra me dizer que nada do que façamos hoje vai mudar o que passou e nem quem somos. E você sabe dos meus medos, de altura, de me entregar, de recomeçar. E hoje eu já acho mesmo que tanto faz estar aqui voltando pra Paris no Expesso Oriente ou estar em um bar qualquer na Vila Madalena. E não tem ninguém sentado ao meu lado. Eu gostei disso, não queria mesmo um vizinho me olhando assustado enquanto eu escrevo pra você, porque eu sempre choro. Já não sei mais não sentir sua falta.

Na parada de Calais, eu pensei em não voltar pro trem, mas lembrei da árvore que tem em frente á janela do quarto que eu divido com a italiana em cima do café. Dá pra subir nela passando pela janela. E talvez você nunca saiba como é bom fazer isso. Mas você sabe como me fazer rir e isso é bem mais dificil do que subir numa árvore qualquer perdida em Paris.

Enquanto eu escrevo, o trem continua mudando a paisagem da janela. E eu já sei que volto pra casa logo, a vida grita e eu preciso deixar ela acontecer.  Ainda que seja perto de você.

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13 de outubro

Posted in Dele on outubro 13, 2010 by .

Liverpool, Califórnia

Eu poderia dizer que só quis te comer, mas fiz foi amor mesmo. Não muda o fato de que eu transei com você. Eu poderia levantar da cama e fumar um cigarro na janela, mas eu não fumo. Não muda o fato de que eu ainda posso ir a janela. Eu poderia lhe contar sobre a migração dos pingüins, mas eu nem sei em que estação estamos. Não muda o fato de que eu posso inventar qualquer história.

Eu poderia lhe dizer pra ouvir Blonde On Blonde do Dylan, mas Wild is the Wind da Nina é uma opção muito mais agradável. Não muda o fato de que o Revolver sempre vai estar num lugar privilegiado da estante. Eu poderia lhe dizer pra assistir a ‘500 dias com ela’, mas você sempre vai preferir ‘Juno’. Não muda o fato de que o Wolverine é o melhor X-Men e que o Harry Potter precisa mesmo morrer.

Eu poderia acreditar nas suas reclamações infantis sobre falta de romantismo, mas eu acredito em fingir mesmo. Não muda o fato de que você pode continuar a mentir como quiser. Eu poderia te trazer a sacada e dançar sem música pra algum vizinho espiar nossa felicidade, mas você morre de medo da altura do segundo andar. Não muda o fato de que eu já puxei a mesa do centro da sala pro canto.

Eu poderia lhe dizer que vou mudar e até jurar, mas tentar nunca foi meu forte. Não muda o fato de que é você que sempre tenta. Eu poderia eleger um dia especial na semana e te levar pra jantar num desses lugares bacanas no Jardins, mas a gente nunca foge do capuccino com coxinha e suco de caju com brigadeiro do shopping. Não muda o fato de que o seu café com leite pela manhã é infinitamente melhor.

E eu poderia lhe dizer que somos reflexo do que vemos um no outro, e afirmar com certeza, porque caso contrário eu não lembraria da ordem exata das músicas do set list que pegamos no show do Pato Fú. E isso não muda o fato de que nada é o que se lembra ou diz que lembra. E só é se a gente permite que essas coisinhas todas que parecem pequenas falem por nós. E nós estamos separados por um oceano.

E daí eu, que tinha a pretensão de ser Liverpool ou Cambridge, descobri que não passo de Califórnia. E é fato que se for assim, eu não teria nunca mais que ouvir Pet Sounds e chorar.