Arquivo para março, 2010

31 de março

Posted in Dele on março 31, 2010 by .

Oi Eme,

Não vou perguntar se tá tudo bem. Não devo te dar o prazer de responder que sim. Eu sei que tá. Mesmo com sua ansiedade e indisposição, eu sei que tá. Imagino o quanto deve ser ruim desfilar pelo Port des Champ Elysées ou pelo La Bourdonnais sozinha (sic).
Não preciso me estender né? O mundo é seu por hoje e por esses dias em que roda do seu jeito. Sinto inveja da sua mala.

Agora, por favor, não se prenda aos nossos planos, sonhos e histórias. Não volte pro Brasil tão cedo. Eu não sei se te quero por aqui, entende? Não sei se dou conta da sua “desistência”. Me deixe ser o fraco, me deixe ser o bobo, pelo menos agora. Se o seu dinheiro acabar e precisar voltar, se vire por ai. Lave louça num desses cafés. Cite as falas da Amelie Poulan em português no meio do Champs de Mars. E, num exagero meu, se for o caso, vire puta. Transe com marroquinos por míseros 100 euros, mas fique aí.

E me deixe ser um pouco egoísta também. Tomar essa cidade em que vivemos só minha. Ter por um momento, todos esses lugares de nós dois, só meu. O meu prédio. A minha rua. A minha vizinhança. O meu bairro. O ônibus que eu pego. O parque e restaurante que eu vou. Me deixe a exclusividade de reconhecer o que já me cansou.
Volte só quando eu estiver bem mesmo. Volte só quando eu me der bem mesmo. Meu coração e minha cabeça, apesar de quererem saber de você, ainda não te aguentam por inteiro.

Mas, do alto do meu comportamento irônico, tinha que ter ido logo de cara pra Paris?! Só porque você sabe que eu não gosto de Paris…
E nem quero imaginar o que você fez dessa vez embaixo da Pont d’Iéna…

Com um tantinho de ciúme,
O mesmo amor de sempre.

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25 de março

Posted in Dela on março 25, 2010 by Maely

Meu querido;

Depois que eu deixei o apartamento fiquei suspensa no ar. Parece que a minha alma saiu do meu corpo e virou expectadora do meu corpo que funcionava no automático. A vida ligada no automático das horas que existiam entre a vida que acabou e a vida que estava por começar, e eu parada ali nesse vazio do tempo que não passava.

E foi tão difícil entregar as chaves, fechar a porta e sair. Deixar pra trás todos os planos e sonhos e as “nossas” histórias. No meio tempo do transe, ainda no aeroporto, eu senti o seu perfume… Alguém passou por mim e tinha o seu cheiro e por uma fração de segundo eu cheguei a sonhar que era você que tinha ido me pedir pra ficar. Mas sabemos que isso não  iria acontecer, e nem vai.

Eu sei que ando melancólica, as pessoas fazem questão de me lembrar isso, mas a maior parte do tempo eu não consigo mesmo ser forte, nem por mim, nem por você, nem por nada. Porque ás vezes a saudade é maior que qualquer outro sentimento, e você bem sabe que eu não sei lidar com a saudade.

Já fazem dez dias e sim, Paris ainda é linda, ainda mais com esse quase começo de primavera. Com todas as suas luzes e seus cafés tão cheios de charme e o cheiro de vinho que por vezes fica impregnado no ar. Estou “morando” em cima de um desses cafés, não é dos mais charmosos mas está sempre cheio e o barulho das pessoas sempre traz uma sensação de vida acontecendo. Não sei quanto tempo fico aqui, confesso que ando fatigada da língua e não ando com disposição pra fingir uma vontade que não existe de conhecer as pessoas. Provavelmente eu volte pro Brasil antes do planejado, ou quem sabe resolva rodar o mundo. Tudo pode acontecer. Agora.

Espero que você esteja se saindo melhor do que eu, afinal alguém tem que fazer isso dar certo, era o que você sempre me dizia com um meio sorriso irônico. E na maioria das vezes essa era a sua parte. Mas eu estou tentando. Mesmo não sendo muito boa nisso. Eu tento. Prometo.

Todo amor.

20 de março

Posted in Dele on março 20, 2010 by .

Oi.
Como tem andado? Ou, melhor, por onde?

Eu vou bem. Tenho me segurado. É melhor que a cabeça não pare mesmo. Os remédios vão ajudando. Até que venho me aguentando bem.
Eis que existe apenas esse refúgio. Daquilo tudo que me atormenta e degenera, seja pelo que for. Na minha cabeça parece mais complicado entender como foi que cheguei aqui. Não que parte disso tenha sido inválida, até porque eu estaria me contradizendo se pensasse assim. Mas tenho me perguntado pelos motivos que sempre impediram algo maior. Talvez já fosse grande o suficiente. E assim pensando, nosso maior se deu muito rápido, antes mesmo do que a gente podia prever. Só restou perder altura.
Fico me perguntando se o mesmo aconteceu com você. Se a hora e a pressa são comuns nisso?

Eu conheci alguém. Encontrei-a no metrô. Fomos ao cinema. Andamos pelo Centro. Sentamos no banco do parque. Vimos um show de uma banda na livraria. E combinamos de ir ao teatro da próxima. Rolou até um beijo na boca. Mas pra casa eu fui sozinho. Voltei de ônibus, sentei na janela e fiquei observando as cores e pessoas e tudo que eu conseguia ver através do vidro. E meu rosto cansado refletia nele. E é engraçado pensar em como me envelheci em tão pouco tempo. Em como me envelheci e me cansei.
Quando cheguei em casa só abri as janelas. A cortina ficou estática apesar do vento. Apesar do vento a cabeça não esfriou. O corpo não esfriou. Talvez a alma. Lá no fundo, talvez ela tenha apagado, ou deixado de existir. E fico me perguntando se é mesmo possível.
Não me orgulho de dizer, e não gostaria que se preocupasse, mas tenho me alimentado mal. Ou menos do que eu devia. Tenho passado mais tempo com os copos do que com o prato e o garfo. Abri aquela garrafa de vodka que a gente nunca abriu. Ela já passa da metade. Na verdade, tá quase no fim. A TV ficou sem som enquanto eu ouvia Oasis. Passei a madrugada ouvindo Oasis. Ouvi todos os discos. E a cada música tentava desvendar os seus segredos e combiná-los com os meus. Tentava lembrar de qual música você mais gostava. Como aquela nossa brincadeira de rankear tudo o que conseguiamos pensar. Tentava a cada nota descobrir o que mais lhe identificava. O que identificava a gente como um casal…

A vida de vez enquando parece acontecer. O que eu posso nomear como “amiga” comprova a teoria. Até beijo na boca eu dei. Mas isso só faz reforçar o que eu realmente sinto. E sinto falta mesmo dos teus beijos.
Eu não sei o que não quero. Não faço ideia. Mas nessa manhã o que quero é bem claro pra mim.
Então, esteja você andando pelas calçadas de Ipanema com chuva, carregando seu guarda-chuva vermelho, ou saltando de pára-quedas nas Cataratas, ou num transatlântico no meio do Oceano, ou num sáfari na África, o meu mundo ainda é o mesmo: pequeno. Mas você costumava caber tão bem nele.

O mesmo amor de sempre.

06 de março

Posted in Dela on março 6, 2010 by Maely

Eu sinto tanta saudade de você, sabe. Sinto falta de estender o braço e ter você ao alcance da mão, do seu olhar que descobria meus pensamentos, das nossas discussões bobas pela manhã. Onde foi que nos perdemos? Onde foi que tomamos o rumo errado?

Amanhã eu entrego as chaves do apartamento que foi, que era nosso. Algumas coisas ainda vão ficar aqui pro caso de você querer buscar, e depois sei lá, peço pra alguém dar um jeito. E vou tomar nossa última garrafa de vinho, a que estava sempre esparando um grande acontecimento pra ser aberta, parece que chegou a hora. Afinal, o fim também deve ser um grande acontecimento.

Eu tenho tentado, eu juro que tento não me lamentar, não chorar, olhar pra frente… Mas é tão dificil nessa casa onde você não está mais, não tem a sua bagunça, nem você sempre me perguntando o que vestir, ou me roubando os livros.

Vou para o frio, vou com Billie Holiday, ela sempre tem as frases certas. Vou com você também, no meu coração, nas lembranças, e vou ainda sem saber o que tenho me perguntado tanto: Onde foi que nos perdemos?

Talvez seja mesmo o destino de todas as coisas acabarem, a única diferença é a maneira como isso acontece. Quem sabe um dia eu descubra.

Te mando o mesmo amor de sempre, hoje com mais saudade que de costume.

05 de março

Posted in Dele on março 5, 2010 by .

Boa viagem.

É estranho começar uma carta com uma despedida. Por mais que possa ser boa a viagem… É que me fez pensar sobre ela de muitos modos.
Você é uma viagem. Ou foi. Ou talvez tenha sido simplesmente a melhor viagem da minha vida. Viagem no bom sentido mesmo. Talvez, pra você, eu tenha sido no mau. Uma viagem desgastante. Daquelas que se atravessa o mundo pra quase nada e só fica cansado, roupas sujas, tênis furado. E só traz a certeza que não devia ter embarcado.

A gente vive a se perguntar se quer a vida com ou sem aventura e depois acaba não dando conta do roteiro. Escolhe os equipamentos errados e nem um bom guia, por mais experiência adquirida, pode ajudar verdadeiramente. E conforme o tempo passa a gente se torna, mesmo, aquela mala pesada.
Na mala que eu trouxe comigo não existia muitos vestígios seus. A não ser, claro, todas as roupas que você escolheu, as que comprou, as que foram presentes. Tem ideia o que é conviver com o perfume que ainda se mantem nelas? O perfume ficou guardado na mala e impregnou o armário todo e consequentemente tudo que está dentro. Tento não mexer o máximo que posso. Não é saudade e não amargo nostalgia da gente, mas é lembrança. Tenho medo de parar de lembrar de você.

Eu não sei como é, mas o universo tem uma forma de girar. Acaba sempre como devia ter sido. Você deve estar morrendo de medo de ir, enquanto eu fico aqui morrendo de medo de continuar. Mas eu garanto que em algum ponto desse caminho a gente vai descobrir tudo. O sonho que tivemos juntos vai ser só mais uma passagem dessa viagem.

O mesmo amor de sempre.